Quarta-feira 24/07

Após 46 anos sem arrotar, homem aplica botox na garganta e fica curado: ‘refrigerante era a morte’

6 de novembro de 2023

Não é falta de educação, nem desleixo: arrotar é questão de saúde. E quem não arrota pode ser portador de uma síndrome recém-descoberta, que afeta um músculo da faringe e causa muito sofrimento. É o caso do engenheiro Marco Antônio, de 46 anos, que passou por um procedimento médico inovador em Porto Alegre, que consiste na aplicação de botox na região da garganta. Após passar pelo tratamento, ele ficou curado da chamada Disfunção Cricofaríngea Retrógrada (DCF-R), ou, informalmente, Síndrome do Não-Arrotar.

“Nunca consegui arrotar. Tomar refrigerante era a morte, era impossível. Mas eu nem sabia que era um problema, achei que era tipo não saber assobiar. Nem me dava conta de todos os efeitos que isso causava”, diz o paciente, que passou pelo procedimento na Santa Casa de Porto Alegre em setembro deste ano.

O procedimento médico foi realizado pelo otorrinolaringologista Geraldo Druck Sant’Anna e consiste na aplicação de toxina botulínica (botox) no músculo do esfíncter do esôfago, conjunto de músculos que mantêm a parte inferior do esôfago fechada, evitando o refluxo de alimentos e ácido gástrico. Com a aplicação de botox, o músculo relaxa, permitindo que os pacientes possam arrotar.

“Existe um músculo que se chama cricofaríngeo, que, no caso das pessoas com essa síndrome, fica muito contraído e a pessoa não consegue eliminar o ar por cima. Aplicando botox, esse músculo relaxa e o arroto pode vir. É um tratamento razoavelmente novo, tem uns quatro, cinco anos. A gente não sabe a longo prazo o que vai acontecer, mas aparentemente os pacientes ficam muito bem depois disso”, explica o médico.

Síndrome recente

A Síndrome do Não-Arrotar é uma descoberta nova: foi descrita pela primeira vez em 2019, pelo médico americano Robert Bastian. Não à toa, é comum que pessoas como Marco Antônio descubram tardiamente que são portadores da condição. O engenheiro, por exemplo, descobriu a síndrome pesquisando os sintomas em fóruns na internet.

Além da doença, Marco Antônio descobriu ainda uma comunidade internacional de portadores de DCF-R. Pessoas que compartilham experiências, sofrimentos e soluções, como o procedimento realizado em Porto Alegre.

“Tem uma mulher que inclusive criou um grupo no Telegram para as pessoas conversarem. Muita gente tem isso, só que as pessoas não se ligam. Eu descobri por acaso, tentando resolver um problema de estufamento no estômago. Vi um vídeo de um médico americano listando os sintomas e, quando ele descreveu, vi que eu me encaixava perfeitamente naquilo ali. Depois de 46 anos, foi a primeira vez que vi o que poderia ser um diagnóstico”, conta.

Depois do procedimento, Marco Antônio diz que ficou totalmente curado. Ele já havia tentando uma intervenção meses antes, em São Paulo, mas sem sucesso. Desta vez, diz que saiu do hospital já sem o problema.

“No dia seguinte, já vi o efeito. Tomei cerveja e água com gás e vi que estava normal, conseguia liberar o gás automaticamente pela garganta. Dá um alívio imediato, é realmente uma mudança de vida. Era uma privação na vida, um controle diário”, conta.

Agora que consegue arrotar, Marco Antônio já se empolga com a possibilidade de novas experiências:

“Nunca gostei de refrigerante, mas poder socializar, tomar uma cerveja sabendo que não vou passar mal, é a melhor coisa do mundo. Poder comer o que eu quiser, assistir a um jogo de futebol, ir a um casamento, a um aniversário, sem precisar me preocupar”, comemora.

Segundo o otorrinolaringologista Geraldo Druck Sant’Anna, após uma ou duas aplicações de botox, o próprio organismo do paciente rearranja o músculo contraído, não precisando mais de novos procedimentos.

“É uma informação bastante importante, muita gente não faz nem ideia que tem. Talvez está incomodando outras pessoas e as pessoas não têm nenhum conhecimento”, explica.

Fonte: G1RS

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